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Chegar até aqui foi uma construção de mim mesma, passando por diferentes fases e descobertas, um marco, um rito de passagem que precisa ser registrado e posto em palavras.

Não me sinto com essa idade, e ouço muitas pessoas, especialmente mulheres falando sobre isso. Talvez porque nossa geração aprendeu a se cuidar, conquistou autonomia, começou a trabalhar fora, ter menos ou nem ter filhos, foi ao divã e se descobriu mulher, pulsante de desejos, e capazes de fazer escolhas.

Pois bem, cá estou eu nesta fase, me dando conta que estou envelhecendo numa cabeça e um corpo ainda jovem, que pulsa.

É assustador pensar que já passei de mais da metade de minha vida, não acredito que chegarei aos 100 anos, mas se estiver bem, por que não?

Comecei a pensar no envelhecimento não a partir de mim, e sim vendo o envelhecer dos outros… ver o envelhecimento dos pais e me dar conta que eles já não são os mesmos foi o primeiro choque de realidade. Um esquecimento aqui, uma dor ali, uma nostalgia no discurso, um estado mais melancólico, menos brilho no olhar.

Foi através de olhar o outro que me voltei a mim. Talvez nessa fase se faça o caminho inverso… antes precisei, como todos, do olhar do outro para me constituir e agora é olhando para o outro que me volto a mim… pelo menos foi essa minha experiência.

Segundo a psicanálise, nosso ego se constrói através do olhar do outro, quando ainda nem nos reconhecemos como gente, vem alguém e diz o que somos, o que estamos sentindo e a partir daí, vamos construindo uma identidade, até ter repertório suficiente para nos sentirmos prontos de dar os primeiros passos para construir a própria identidade, isso, claro, se tudo correr minimamente bem.

Voltando ao meu momento, o mais trabalhoso foi tentar compreender necessidades de diferentes gerações que nos cercam em alguma medida e pensar que as posições são transitórias. Já estive no lugar dos meus filhos, com hormônios a mil, explodindo pelos poros, hoje, estou com os hormônios em falta e daqui a pouco talvez esteja com menos brilho no olhar, querendo um mar calmo para navegar.

Mas é nesse momento atual, que consigo perceber. Não me dava conta quando adolescente das necessidades dos meus pais, e não tive a sorte de conviver com avós. Talvez se personifique o tal do caminho do meio na minha própria trajetória. Se pensar no meu percurso de vida, talvez eu esteja no meio, mesmo. Pois vejo uma nova vida pela frente!

Não só olhar para trás e ver o caminho que percorri até chegar aqui, mas o caminho que quero percorrer daqui para frente, quais as minhas escolhas (e já fiz tantas) para as próximas fases da minha vida… sigo trabalhando em análise.

Vivemos uma espécie de luto ao passar de uma fase para outra. Na adolescência, ficamos com um não lugar, já não somos mais crianças, mas também não somos adultos, não entendemos muito bem o que vem pela frente, algumas coisas que cabiam serem feitas já não nos cabem mais… veja a semelhança… dá para repetir o mesmo discurso trocando algumas palavras… na envelhecência ficamos com um não lugar, já não somos mais jovens, mas também não somos velhos, não entendemos muito bem o que vem pela frente, algumas coisas que cabiam serem feitas já não nos cabem mais.

Se estivesse numa sessão lacaniana, faria um corte aqui. Foi essa sensação que tive ao escrever.

Vivemos um processo de luto, e nos damos conta que, além dele ser muito individual, cada um elabora de uma forma, no seu tempo, há uma energia libidinal que está sem o objeto e essa energia precisa se voltar para si para ser elaborada e reinvestida em outro objeto.

Por isso, talvez, vemos tantas pessoas maduras se reinventando, viajando, aprendendo algo novo, se permitindo. Talvez seja preciso manter um pouco de empolgação, a tal da jovialidade facilita esse processo, passar bem por essa fase requer conseguir se adaptar as mudanças, usar a criatividade, ousar, se arriscar, ter pulsão, menos vergonha.

Envelhecer requer um trabalho psíquico contínuo, onde nos defrontamos com a finitude, passando por aspectos biológicos e sociais. Já não temos a mesma memória, o mesmo corpo, a mesma empolgação, o mesmo papel social, tudo muda e então vivenciamos mais uma vez a Transitoriedade da Vida.

Freud argumenta em um de seus textos  “Sobre a Transitoriedade” que o fato de algo ser passageiro não diminui seu valor, pelo contrário, a escassez do tempo aumenta a sua preciosidade.

Em contrapartida, Freud não era muito otimista em processos analíticos após os 50 anos pois dizia que exigia uma certa “elasticidade mental”. Outra época mesmo! Hoje nos deparamos com uma clínica vital entre os idosos, onde em meio a nostalgia, escutamos a construção de uma singularidade e o regate do sujeito para além da velhice.

Para a psicanálise, uma das premissas fundamentais é que o inconsciente é atemporal e escutamos o sujeito do desejo, que nem sempre envelhece, e pode gerar angústia quando há um desencontro.

Mais uma vez, nos deparamos com a beleza e a delicadeza da psicanálise, ouvindo o discurso, sem rótulos.

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