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A saúde mental, na perspectiva da psicanálise, não se limita à ausência de sofrimento psíquico. Ela envolve a capacidade de entrar em contato com os próprios afetos, sustentar conflitos internos e elaborar, ao longo do tempo, aquilo que insiste em se repetir.

Um ponto fundamental nessa compreensão é a relação entre corpo e mente. Durante muito tempo, essas dimensões foram pensadas como separadas. Hoje, sabemos que essa divisão é artificial.

Grande parte da nossa experiência passa pelo corpo. Emoções, pensamentos e até conflitos psíquicos se manifestam corporalmente — o que nos mostra que corpo e mente não estão separados, mas profundamente integrados.

Quem escuta o próprio corpo reconhece: o coração acelera diante da angústia, a musculatura se enrijece sob tensão, o cansaço se instala quando há excesso psíquico. O corpo, muitas vezes, antecede a palavra.

Desde Sigmund Freud, o corpo ocupa um lugar central na teoria psicanalítica. O sintoma não é apenas um fenômeno orgânico, mas uma formação de compromisso — uma tentativa de dar expressão a algo que ainda não encontrou vias de simbolização.

Nesse contexto, práticas contemporâneas como o Mindfulness podem dialogar de forma interessante com a clínica psicanalítica, desde que não sejam compreendidas como técnicas de supressão do sintoma ou de adaptação rápida do sujeito.

O mindfulness, entendido como cultivo da atenção ao momento presente, pode favorecer uma maior sensibilidade às manifestações corporais e afetivas — ampliando a capacidade de escuta de si. Para sujeitos em análise, isso pode operar como um recurso complementar: não para substituir a associação livre, mas para sustentar a presença diante da própria experiência.

Para o analista, inclusive, essa prática pode contribuir para a qualidade da escuta clínica — afinando a atenção flutuante e a capacidade de sustentar o silêncio, o tempo e a emergência do inconsciente.

No entanto, é fundamental preservar a especificidade da psicanálise. Enquanto o mindfulness tende a trabalhar com a observação e a aceitação da experiência tal como ela se apresenta, a psicanálise se orienta pela escuta do que, na experiência, escapa, se desloca, se repete e se disfarça.

Talvez o ponto de encontro esteja justamente aí: na possibilidade de sustentar a experiência — corporal e psíquica — sem recuo imediato, abrindo espaço tanto para a presença quanto para a elaboração.

Cuidar da saúde mental, nesse sentido, não é eliminar o mal-estar, mas construir condições internas para habitá-lo de forma mais consciente, menos automática e mais integrada.

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