A raiva, tão humana quanto inevitável, costuma ser vista como algo a ser evitado, reprimido ou rapidamente justificado. Mas, no campo da psicanálise, ela ganha outro sentido: é um afeto fundamental, uma via de expressão das pulsões e um importante sinal sobre nossa vida interna.
Freud já apontava que as pulsões — forças inconscientes que buscam descarga —, quando bloqueadas ou frustradas, podem se transformar em agressividade. O desejo que não encontra caminho — seja por amor, atenção ou prazer — pode retornar como tensão e irritação. Em outras palavras, a raiva não surge do nada; ela revela algo que, em algum ponto, ficou impedido de fluir.
Muitas vezes, a forma como experimentamos e expressamos esse afeto tem raízes profundas na infância. A relação com os cuidadores inaugura em nós os primeiros limites, frustrações e possibilidades de expressão emocional. Uma criança que não pôde demonstrar desagrado, ou que foi punida por isso, tende a aprender que sentir raiva é perigoso — e internaliza o afeto. O preço dessa repressão frequentemente aparece mais tarde: irritabilidade crônica, tristeza, ataques de ansiedade ou até somatizações, quando o corpo fala o que o psiquismo tenta silenciar.
Em análise, a raiva costuma emergir no vínculo com o analista. Não porque ele faça algo “errado”, mas porque a transferência reencena afetos antigos ainda não simbolizados. Da mesma forma, na vida cotidiana, projetamos no outro emoções que não reconhecemos em nós mesmos; vemos raiva onde, na verdade, estamos lutando para admitir que somos nós que estamos furiosos. Os mecanismos de defesa distorcem, deslocam e afastam o afeto da consciência — mas não o eliminam.
Apesar da má fama que carrega, a raiva tem uma função profundamente construtiva. Ela aponta limites ultrapassados, injustiças vividas, necessidades desconsideradas. O trabalho psicanalítico não busca apagar a raiva, mas dar-lhe nome, lugar e sentido. Reconhecer o que dói, entender de onde veio e, por fim, canalizá-la de forma simbólica — seja pela fala, pela criação ou pela tomada de decisões mais alinhadas consigo.
É comum vermos exemplos cotidianos desse movimento inconsciente. Uma pessoa que se irrita constantemente com o parceiro pode estar revivendo, sem perceber, a antiga sensação de invisibilidade vivida na infância. Alguém que nunca diz “não” e vive esgotado talvez esteja reprimindo raiva para preservar a imagem de “bom” — ainda que isso lhe custe caro.
Interessante notar como esse olhar psicanalítico sobre a raiva dialoga, de forma inesperada, com a Comunicação Não Violenta (CNV). Enquanto a psicanálise entende a raiva como sinal de desejos inconscientes frustrados, a CNV a vê como um indicador de necessidades não atendidas. Ambas concordam: a raiva não é erro moral, mas um pedido interno por cuidado.
Na psicanálise, quando o afeto é reprimido, ele se converte em sintoma; na CNV, quando não é ouvido, transforma-se em explosão ou silêncio que fere. As duas abordagens convidam à pausa: escutar antes de agir. Na CNV, esse movimento é estruturado nos quatro passos — observar, nomear o sentimento, identificar a necessidade e formular um pedido claro. Já na análise, a fala livre permite que a raiva tome forma simbólica, ganhe palavras e perca o peso da atuação impulsiva.
Se, na psicanálise, o outro funciona como espelho das nossas projeções, na CNV ele é acolhido com empatia: o foco não é o comportamento, mas a necessidade por trás dele. Em ambos os casos, o convite é o mesmo: olhar além da superfície, abandonar a reatividade e transformar o conflito em possibilidade de encontro.
No fundo, a raiva fala. Fala do que foi demais, do que faltou, do que ainda não foi dito. Fala do inconsciente e das necessidades mais essenciais. E talvez o trabalho seja justamente esse: aprender a ouvi-la — não para ceder a ela, mas para transformá-la em consciência, palavra e relação.